terça-feira, janeiro 01, 2008

A Honra e o Sentido da Vida

Desde que Peristiany escreveu Honra e Vergonha[1], estudo sobre os valores da sociedade mediterrânea, que muito pouco ou nada se discute sobre o tema. Quero focar este texto sobre a questão da honra.

Parece-me que embora os estudiosos não separem a honra da sua antagonista vergonha, a primeira possui valor autónomo em si própria. Pois, bem o sabemos, a maioria de nós, não tendo vergonha de nenhum gesto seu, igualmente também não possui especial orgulho em nenhum dos seus comportamentos. Vive-se o dia a dia numa espécie de dormência existencial; somos arrastados por uma força quase externa às nossas obrigações normais, costumeiras, as quais realizamos com gestos mecânicos e rotineiros. Ausentes da vida como de quase tudo o resto, perseguimos o nosso rumo obrigacional em direcção ao vazio com a esperança de sermos compensados pelo descanso merecido de pelo menos termos as noites livres para os sonhos onde o nosso pensamento se liberta dos grilhões da nossa escravatura dourada. Falta-nos um sentido; uma razão de ser maior do que a existência para que esta se torne digna do nosso sacrifício diário. A normalidade já não nos compensa. Precisamos de verdadeiros motivos, verdadeiras alegrias, as quais enganamos com as prendas com que nos agraciamos e que adquirimos nas grandes catedrais do consumo. Um retorno à infância talvez, quando receber um brinquedo era uma festa. Mas passada a euforia dos primeiros momentos, voltamos à nossa condição de depressão residual. E toda a alegria atingida se esvai porque afinal a forma como a conseguimos era frágil e efémera. Tentamo-nos convencer de que está tudo bem e que somos tolos.

Mas afinal o que nos falta? Falta-nos o sentido. Essa sensação de que fazemos parte de algo maior do que nós, essa sensação de que nos transcendemos a nós próprios, de que somos capazes de fazer o que tem de ser feito, o que sentimos dentro de nós que tem de ser feito e de que temos de ser nós a fazê-lo. Falta-nos esse sentimento de transcendência de sermos especiais não por possuirmos, mas por sermos. Falta-nos o Verbo. E o verbo vem antes dos adjectivos. Falta-nos o conteúdo para a forma. Falta-nos a prenda dentro do embrulho. Falta-nos tudo isso. Precisamos de enformar os nossos fatos com carne verdadeira e a carne verdadeira com a alma. E tudo isto só pode ser conseguido quando nos capacitarmos que a honra é a moral que nos une ao divino e que faz de nós criaturas maiores do que os ratos.

É pela honra que nos transcendemos, pelo orgulho de sermos quem somos, pela glória de conseguirmos estar onde devemos estar e de fazer o que temos de fazer. Pela urgência de acontecermos antes de morrermos. Pela necessidade imperiosa de vencermos a nossa morte não amanhã, mas agora. Pela vontade de vivermos para além dos limites da nossa vida, do nosso tempo fugaz.

É pela honra que conseguimos derrubar obstáculos, fazer história. É pela honra dos homens que as sociedades evoluem, se transformam e se dignificam. É sobre o sangue dos nossos antepassados que caminhamos. E será sobre o nosso, que caminharão as gerações futuras. E no entanto, quantas vezes na nossa vida actual ouvimos falar em honra?

Na verdade a honra caiu em desuso. Tornou-se obsoleta. A honra e sentimentos a ela derivados como a glória e o épico. É absolutamente incrível como a sociedade consegue apagar dos seus cidadãos emoções e sentimentos através de coisas tão concretas e definidas como decretos de lei. Isto parece ridículo, mas na verdade basta-nos pensar na forma como condenando certo tipo de comportamentos associados a fases históricas que se querem apagar da memória colectiva, eliminam-se conceitos linguísticos do vocabulário corrente sem os quais ficamos impossibilitados de pensar e estruturar determinado tipo de emoções humanas. Por exemplo, eliminou-se completamente o conceito de glória de nação, devido à intenção política de fazer cair no esquecimento o nacionalismo e o sentimento de pertença a uma mesma identidade cultural nacional, fruto das necessidades recentes de integrar o povo numa cultura mundial necessária à tão desejada globalização. Quais são os homens hoje em dia que pretendem conduzir o seu povo à glória? Os políticos deveriam encabeçar esta lista. E no entanto são os mais acusados de corrupção e de falta de dignidade no cumprimento das suas obrigações para com o país.

O que nos falta para assumirmos a condição de heróis e de vestirmos o embrulho que nos dará alegria para a vida inteira? O que nos faltará para nos descobrirmos a nós próprios? Faltam-nos as armas do pensamento que está tolhido e amordaçado pela conjuntura sócio-politica em que vivemos. Não é só na sociedade que George Orwell ficcionou na sua obra 1984, que existia polícia do pensamento. Também hoje, aqui e agora, existem formas de domesticar as mentes mais subversivas e de as pôr no devido eixo para que se impeça o progresso do rumo histórico.

O pensamento domestica-se primeiro lugar, através da censura generalizada de actos e comportamentos associados à honra e glória, incluindo os históricos, propagada pelos devidos meios de socialização (escolas, cultura e meios de comunicação social); e em segundo lugar, pela restrição linguística do vocabulário à medida que essas formas de acção e pensamento vão desaparecendo.

Não podemos pensar aquilo que não conhecemos. Muito menos agir de acordo com isso. E é mesmo esta a intenção política da actualidade. Transformar as massas populacionais amorfas, em criaturas iguais a essa classe corrompida moralmente. Acabar com toda a réstia de esperança de um dia nos realizarmos como Pessoas com “P” grande como se escrevia Pessoa. Porque essa fonte de energia é a mais incontrolável e a mais perigosa que pode existir para aqueles que pretendem manter-se eternamente no poder. A energia da verdadeira alma; daqueles que ainda respiram e que sentem que a hora é chegada. Que não ficam à espera que algo aconteça para saírem do marasmo em que nos fazem viver. Aqueles que sabem que a sua honra vale mais do que a morte. Porque quem não tem motivos pelo que morrer, também não tem motivos pelo que viver.

O futuro espera por nós. O futuro espera pelos seus heróis, pelos seus sonhadores, pelos seus artistas, pelos seus guerreiros. O futuro espera por nós para que possa nascer. Que nos tornemos nos seus heróis vivos em vez dos pais mortos. É disso que ele precisa. É disso que nós precisamos.


[1] Peristiany, J.G. (org). Honra e Vergonha: Valores da sociedade mediterrânea. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1965

3 comentários:

CresceNet disse...

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Arqueofuturista disse...

Muito bom artigo. Publiquei-o no NOVOpress.

Um abraço.

Inês disse...

Arqueofuturista, vi agora o NOVOpress. Obrigada :)
Um abraço para si também.