segunda-feira, março 17, 2008

O ser humano, os lobisomens e a morte das sociedades híbridas.

Parece que existe entre os humanos a impossibilidade de se reproduzirem sexualmente com outras espécies. Esta realidade que tem pautado a existência humana ao longo de toda a sua existência através de um certo bom senso consensual, parece actualmente estar prestes a ser posta em causa, senão mesmo totalmente abandonada, devido aos avanços da engenharia genética e à capacidade de produção em laboratório de seres híbridos resultantes do cruzamento de espécies naturalmente divergentes. A partir daqui e dependendo das vontades políticas que nos governam, poderemos tentar adivinhar o que será o futuro.

Contudo, não é tanto esse futuro quase circense de uma galeria de horrores que aqui nos interessa. Interessa-nos mais as histórias de lobisomens que povoaram o imaginário popular português nomeadamente do interior do país ate meados do século XX.

A questão aqui importante a saber é que tipos de função preenchiam essas crenças nos lobisomens. Os mitos dos lobisomens tal como todos os mitos em geral parece, além de tudo, preencher um espaço de reflexão. O que eles nos dizem é que determinados indivíduos se transformam em lobos durante determinadas alturas do mês, e que nessas alturas são particularmente perigosos para as pessoas e para a comunidade em geral. Daí resulta uma série de proibições implícitas resultantes do perigo que a comunidade e os indivíduos enfrentam (particularmente as mulheres), como seja a de saírem de casa depois do anoitecer pelo perigo de serem atacados por um desses seres monstruosos.

Ora que reflexões nos podem induzir estes mitos dos lobisomens? Primeiro e antes de mais, a situação da ambiguidade e marginalidade do ser humano que não é totalmente humano. Ou seja a ambiguidade do monstro de Frankenstein. Um humano feito com pedaços de muitos outros humanos. Que melhor metáfora podemos ter para o problema?

Todas as ambiguidades são objecto de reflexão mitológica. O texto mítico como que expressa uma reflexão profunda e colectiva, comunitária, sobre cada essas ambiguidades. E o caso do mito do lobisomem parece tratar-se de uma reflexão sobre as posições taxionómicas da espécie humana e das outras não-humanas, bem como sobre o espaço conceptual que cada uma delas ocupa de acordo com a ordem natural das coisas, ou seja, de acordo com o princípio de não cruzamento entre a espécie humana e as outras, representadas aqui pelo lobo. A ambiguidade aqui mantida pelo lobisomem, aquele que não é humano nem é lobo mantendo-se parte do primeiro e parte do segundo, é ela própria a essência da reflexão, sendo o mito o responsável pelo aviso do perigo eminente de tal ambiguidade, e pelo aconselhamento aos comportamentos correctos em vista à manutenção da ordem no cosmos.

Ora, as classificações onde os homens distribuem as coisas e os seres, são imensas, e prendem-se sempre com a questão da organização do seu universo numa tentativa de mantê-lo em ordem face aos caos ameaçador da estabilidade e da segurança.

O homem do campo sabe distinguir uma flor amarela de uma alface pela simples observação directa. Não precisa que um cientista lhe diga que são espécies diferentes. Ele sabe-o bem, pelo conhecimento da experiência que adquiriu ao longo da vida e daquilo que lhe foi transmitido pelos seus antepassados. Do mesmo modo o homem primitivo aprendeu a manter-se unido face às ameaças externas das tribos vizinhas. Ele aprendeu a preservar a sua identidade, as suas formas de ser, de estar e de fazer, tal qual os seus antepassados o tinham sido, feito e dito, porque disso dependia a preservação do grupo e a sua sobrevivência. Claro que haviam alianças, mas não com tribos diametralmente opostas, mas apenas entre tribos vizinhas. As alianças eram aliás uma forma da manutenção da paz e de defesa do território. As alianças feitas entre grupos através da troca de mulheres, estruturavam-se segundo uma rede de proximidade/distância conceptual que vai do mais familiar ao mais longínquo e onde a aliança se estabelece preferencialmente com o mais próximo, e evita-se com o longínquo. Trata-se de uma rede hierárquica de preferências para estabelecer a paz (aliança) ou a guerra, que é estabelecida pelo grau de maior ou menor proximidade conceptual em relação a outrem. Ora, mais uma vez aqui a questão da recusa e resolução da ambiguidade (reflexa no mito dos lobisomens de que falámos anteriormente, a respeito da taxionomia animal onde os humanos não se cruzam com outras espécies diferentes), é importante para salvaguardar a identidade dos grupos na medida em que não admite alianças com grupos conceptualmente distantes, preferindo-as com os grupos adjacentes mesmo a nível territorial. Criar alianças com o conceptualmente distante é inserir o “Outro”, o estranho, o bizarro, o perigoso, no seio da própria comunidade. Esta questão parece-me ser da maior importância, pois é a resolução e recusa da ambiguidade pela comunidade através do mito, e muitas vezes encenada no próprio rito, que catapulta o grupo a manter-se coeso permitindo-lhe a sobrevivência a todo o tipo de erosão da história ou mesmo corrosão, seja ela resultante de que tipo de ameaça for.

Estas ideias têm, como é óbvio, consequências no pensamento político. Agir contrariamente, a elas é agir contra a própria natureza humana testada e afirmada ao longo de séculos e séculos de história. Neste momento que urge pensar e agir à velocidade das máquinas, as ameaças são muitas. Talvez tenhamos no futuro de nos debatermos com toda uma sociedade híbrida. Hoje, de humanos híbridos tal como nos conhecemos ainda; mas, quem sabe, amanhã também uma sociedade de novos “lobisomens” gerados em laboratório pela engenharia genética, ou talvez ainda de seres, até agora apenas ficcionados pela ficção científica, que oscilam entre o homem-biológico e um homem-máquina. No fim de contas parece que a palavra de ordem, a tónica deste discurso político actual, é essa hibridez sempre aceite e sempre bem vinda por parte do poder instituído. Esta hibridez que não é mais do que a ambiguidade recusada e resolvida pelos mitos dos nossos ancestrais ao longo de toda a nossa história. O fim das fronteiras entre o “Eu” e o “Outro” conduz à morte tanto de um como de outro. A hibridez é o verdadeiro rosto da morte. Uma morte onde o que era já morreu, e onde se procura levantar uma nova identidade à escala global. Mas uma identidade global donde ninguém realmente se sente parte, por pura e simplesmente não existir uma cultura identitária mundial. Mais ainda, tal cultura global nunca poderá existir, por não haver alteridade no espaço cósmico aos seres do planeta Terra. A não ser que sejamos invadidos por extra terrestres. Só nesse caso poderia haver uma cultura e uma identidade à escala planetária. Parece-me pelo contrário que a evolução da identidade dos grupos, não vai ser tendencialmente para se alargar territorialmente, mas pelo contrário para se localizar em pequenos grupos territoriais mesmo que à partida o elo de união entre os seus membros não seja territorial. À medida que o discurso globalista integrador e provocador de ambiguidades híbridas for ganhando terreno, pequenas implosões identitárias dar-se-ão por toda a parte como forma dos indivíduos combaterem o isolamento e a solidão a que o deserto da pseudo-cultura global os remete. E dessas implosões locais criadoras de pequenos grupos de identidade, novas alianças se estabelecerão dando origem a grupos localizados maiores e melhor organizados. Não vivemos na Era do cidadão do mundo. Vivemos na Era da multiplicação dos grupos e da recusa do indiferentismo a que a globalização pretende remeter os indivíduos. Separado desses grupos, o indivíduo isolado não consegue sobreviver. Ficará no meio do fogo cerrado que acontecerá à sua volta sem que ninguém o proteja. A nova ordem já começou. A maior parte das guerras do futuro serão estas que as novas identidades traçam. Serão guerras de guetos contra guetos. E pouco mais restará da antiga divisão político-administrativa do território real do que guetos.

Resta-nos lutar desde já para que o antigo saber dos nossos antepassados regresse a nós e não se perca; para que esses mitos e lendas que pautavam a sua vida, voltem para nos ensinar aquilo que já os nossos avós aprendiam com eles – que a sobrevivência do nosso grupo depende inexoravelmente da nossa vontade de permanecermos unidos e coesos num só território, numa só língua, numa só voz.

5 comentários:

Caturo disse...

Num só povo, tendo consciência duma só Ancestralidade.

Bom artigo, descrição bem sólida do significado da Identidade e do Mundialismo.

Carl disse...

Um bom texto mas um esquerdista arranjava ai desculpas.

Diriam logo que nao podemos comparar humanos com lobos e outros animais. Diriam tambem que os mitos são so contra animais e nao contra outras raças humanas. enfim eles arranjam sempre algo.

Já agora, a proposito deste e doutros temas que li neste blogue, por acaso nao se lembram duma foto de uma noticia de jornal que circulava pela net e até esteve no forum nacional, onde Antropologos afirmavam que os Europeus estavam em risco de extinção? Nunca mais encontrei essa foto, será que algum dos leitores me arranja a morada?

Silvério disse...

Carl não conhecia essa notícia, mas é bem provável que haja um risco de "extinção" por assimilação. Se encontrares depois põe aí.

De vez em quando saem umas noticias engraçadas, uma vez lembro-me de ver no jornal do metro um estudo em que afirmavam que os portugueses eram um dos 7 povos mais homogéneos geneticamente, agora não sei se da Europa ou do mundo, isto porque na altura não liguei muita importância, depois mais tarde quis encontrar isso e nunca mais dei com a noticia.

Cumprimentos

Inês disse...

Carl, obrigada pela apreciação ao texto. Não se trata de um texto verdadeiramente cientifico pois carece de maior aprofundamento e fundamentação teórica. Mas baseia-se em alguns conhecimentos que acumulei ao longo de anos de investigação sobre assuntos contíguos ao tema. Contudo creio poder ser uma boa plataforma de arranque para testar as hipóteses nele contidas. Só não entendo porque actualmente as hipóteses testadas pelos cientistas do sistema, privilegiam sempre o lado ideológico oposto ao que aqui expressei, mentindo descaradamente ao negarem a possibilidade de outras perspectivas que apoiam ideários não dominantes e menos "politicamente correctos".

Quanto ao pedido de informação sobre a tal notícia acerca de antropologos que afirmam os Europeus estarem em risco de extinção, lamento mas desconhecia. E sinto um interesse tão grande no assunto quanto o seu. Pelo que vou tentar averiguar e se descobrir alguma coisa logo aqui lhe comunicarei.

PintoRibeiro disse...

E encontrei um post que se lê a esta hora.
Bem bom.