quinta-feira, fevereiro 14, 2008
sábado, fevereiro 09, 2008
sexta-feira, fevereiro 08, 2008
La la la human steps
Para ver e apreciar daquilo que de bom ainda se faz no Ocidente.
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quinta-feira, janeiro 17, 2008
O Cheiro nauseabundo em Lisboa afinal era proveniente de um frasquinho ...
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1316978
Leia-se a notícia acima sobre o cheiro nauseabundo que ontem invadiu as ruas de Lisboa, nomeadamente, e segundo o jornal da sic noticias da meia noite, as zonas de: Entrecampos, Campo Grande, Saldanha e Praça de Espanha, tendo alguns prédios sido evacuados. Os peritos chegaram à conclusão de que afinal o cheiro era proveniente de um frasco quebrado junto à faculdade de farmácia.
Ora se isto não é passar um atestado de estupidez ao povinho não sei o que será. Mas quem é que acredita que de um simples frasquinho poderá vir um cheiro capaz de se fazer sentir numa área tão grande como a descrita pela comunicação social???Que não queiram divulgar o verdadeiro motivo de tão nauseabundo cheiro por uma zona tão extensa é uma coisa, mas que gozem com o povinho à força toda é outra. Isto realmente já cheira mal... muito mal mesmo, que isto o povinho é sempre o corno da festa que como se costuma dizer: é sempre o último a saber.
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Inês
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terça-feira, janeiro 01, 2008
A Honra e o Sentido da Vida
Desde que Peristiany escreveu Honra e Vergonha[1], estudo sobre os valores da sociedade mediterrânea, que muito pouco ou nada se discute sobre o tema. Quero focar este texto sobre a questão da honra.
Parece-me que embora os estudiosos não separem a honra da sua antagonista vergonha, a primeira possui valor autónomo em si própria. Pois, bem o sabemos, a maioria de nós, não tendo vergonha de nenhum gesto seu, igualmente também não possui especial orgulho em nenhum dos seus comportamentos. Vive-se o dia a dia numa espécie de dormência existencial; somos arrastados por uma força quase externa às nossas obrigações normais, costumeiras, as quais realizamos com gestos mecânicos e rotineiros. Ausentes da vida como de quase tudo o resto, perseguimos o nosso rumo obrigacional em direcção ao vazio com a esperança de sermos compensados pelo descanso merecido de pelo menos termos as noites livres para os sonhos onde o nosso pensamento se liberta dos grilhões da nossa escravatura dourada. Falta-nos um sentido; uma razão de ser maior do que a existência para que esta se torne digna do nosso sacrifício diário. A normalidade já não nos compensa. Precisamos de verdadeiros motivos, verdadeiras alegrias, as quais enganamos com as prendas com que nos agraciamos e que adquirimos nas grandes catedrais do consumo. Um retorno à infância talvez, quando receber um brinquedo era uma festa. Mas passada a euforia dos primeiros momentos, voltamos à nossa condição de depressão residual. E toda a alegria atingida se esvai porque afinal a forma como a conseguimos era frágil e efémera. Tentamo-nos convencer de que está tudo bem e que somos tolos.
Mas afinal o que nos falta? Falta-nos o sentido. Essa sensação de que fazemos parte de algo maior do que nós, essa sensação de que nos transcendemos a nós próprios, de que somos capazes de fazer o que tem de ser feito, o que sentimos dentro de nós que tem de ser feito e de que temos de ser nós a fazê-lo. Falta-nos esse sentimento de transcendência de sermos especiais não por possuirmos, mas por sermos. Falta-nos o Verbo. E o verbo vem antes dos adjectivos. Falta-nos o conteúdo para a forma. Falta-nos a prenda dentro do embrulho. Falta-nos tudo isso. Precisamos de enformar os nossos fatos com carne verdadeira e a carne verdadeira com a alma. E tudo isto só pode ser conseguido quando nos capacitarmos que a honra é a moral que nos une ao divino e que faz de nós criaturas maiores do que os ratos.
É pela honra que nos transcendemos, pelo orgulho de sermos quem somos, pela glória de conseguirmos estar onde devemos estar e de fazer o que temos de fazer. Pela urgência de acontecermos antes de morrermos. Pela necessidade imperiosa de vencermos a nossa morte não amanhã, mas agora. Pela vontade de vivermos para além dos limites da nossa vida, do nosso tempo fugaz.
É pela honra que conseguimos derrubar obstáculos, fazer história. É pela honra dos homens que as sociedades evoluem, se transformam e se dignificam. É sobre o sangue dos nossos antepassados que caminhamos. E será sobre o nosso, que caminharão as gerações futuras. E no entanto, quantas vezes na nossa vida actual ouvimos falar em honra?
Na verdade a honra caiu em desuso. Tornou-se obsoleta. A honra e sentimentos a ela derivados como a glória e o épico. É absolutamente incrível como a sociedade consegue apagar dos seus cidadãos emoções e sentimentos através de coisas tão concretas e definidas como decretos de lei. Isto parece ridículo, mas na verdade basta-nos pensar na forma como condenando certo tipo de comportamentos associados a fases históricas que se querem apagar da memória colectiva, eliminam-se conceitos linguísticos do vocabulário corrente sem os quais ficamos impossibilitados de pensar e estruturar determinado tipo de emoções humanas. Por exemplo, eliminou-se completamente o conceito de glória de nação, devido à intenção política de fazer cair no esquecimento o nacionalismo e o sentimento de pertença a uma mesma identidade cultural nacional, fruto das necessidades recentes de integrar o povo numa cultura mundial necessária à tão desejada globalização. Quais são os homens hoje em dia que pretendem conduzir o seu povo à glória? Os políticos deveriam encabeçar esta lista. E no entanto são os mais acusados de corrupção e de falta de dignidade no cumprimento das suas obrigações para com o país.
O que nos falta para assumirmos a condição de heróis e de vestirmos o embrulho que nos dará alegria para a vida inteira? O que nos faltará para nos descobrirmos a nós próprios? Faltam-nos as armas do pensamento que está tolhido e amordaçado pela conjuntura sócio-politica em que vivemos. Não é só na sociedade que George Orwell ficcionou na sua obra 1984, que existia polícia do pensamento. Também hoje, aqui e agora, existem formas de domesticar as mentes mais subversivas e de as pôr no devido eixo para que se impeça o progresso do rumo histórico.
O pensamento domestica-se primeiro lugar, através da censura generalizada de actos e comportamentos associados à honra e glória, incluindo os históricos, propagada pelos devidos meios de socialização (escolas, cultura e meios de comunicação social); e em segundo lugar, pela restrição linguística do vocabulário à medida que essas formas de acção e pensamento vão desaparecendo.
Não podemos pensar aquilo que não conhecemos. Muito menos agir de acordo com isso. E é mesmo esta a intenção política da actualidade. Transformar as massas populacionais amorfas, em criaturas iguais a essa classe corrompida moralmente. Acabar com toda a réstia de esperança de um dia nos realizarmos como Pessoas com “P” grande como se escrevia Pessoa. Porque essa fonte de energia é a mais incontrolável e a mais perigosa que pode existir para aqueles que pretendem manter-se eternamente no poder. A energia da verdadeira alma; daqueles que ainda respiram e que sentem que a hora é chegada. Que não ficam à espera que algo aconteça para saírem do marasmo em que nos fazem viver. Aqueles que sabem que a sua honra vale mais do que a morte. Porque quem não tem motivos pelo que morrer, também não tem motivos pelo que viver.
O futuro espera por nós. O futuro espera pelos seus heróis, pelos seus sonhadores, pelos seus artistas, pelos seus guerreiros. O futuro espera por nós para que possa nascer. Que nos tornemos nos seus heróis vivos em vez dos pais mortos. É disso que ele precisa. É disso que nós precisamos.
[1] Peristiany, J.G. (org). Honra e Vergonha: Valores da sociedade mediterrânea.
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Inês
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quinta-feira, novembro 01, 2007
Coisas tristes
Ao que parece Moçambique recusou a oferta de um camião do lixo com 25 anos da CM do Porto, afirmando que não precisam do nosso lixo e que por lá só se usa do novo e do melhor, e ainda que os Europeus nos últimos tempos andam a pensar que podem mandar para África todo o lixo que já não tem utilidade. Afirmação que me parece acertada, mais que não fosse por tratar-se mesmo de um camião de lixo. É deveras triste ver esta mentalidade tuga de dar ao africano os restos do prato como que pagamento dos anos de colonialismo, mesmo que eles digam que não apreciam a oferta. E por cá se vai formatando cabeças, mais por falta de actualização das politicas de ensino, do que propriamente por conspiração. É que toda a maquina pensante do sistema português só daqui a 10 ou 20 anos é que vai-se aperceber do que é que isto quer dizer, e nessa altura vão gritar bem alto "Eureka!" como se tivessem descoberto a pólvora. Tristes iluminados, que não fosse pelo mal que causam aos outros, dariam mais dó do que revolta pelas injurias que realizam contra a memória e o património do nosso povo.
Infelizmente está fora de questão poder manda-los para África, visto que nem mesmo os africanos os aceitam pois já passaram dos 25 anos no poder.
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quarta-feira, outubro 31, 2007
quinta-feira, outubro 25, 2007
Novilingua ou a decadência da sociedade?
Chamou-me à atenção este assunto ao tomar consciência num noticiário televisivo, da pobreza, tanto de vocabulário como das construções morfológicas, das frases com que os jornalistas nos apresentam diariamente os acontecimentos que vão no mundo. A linguagem coloquial parece ter desaparecido da nossa vida. E interrogo-me se terá sido sempre assim e isto é um mero efeito circunstancial; ou se, de facto, o resumo do vocabulário que se observa hoje em dia é mais do que um resultado sintomático de uma qualquer teoria da conspiração tecida pela ardil paranóia pública. Voltando aos tempos idos, basta pegar num texto vulgarmente conhecido para testarmos a primeira hipótese. As “Trovas” escritas no século XVI por Bandarra, consistem num texto literário e profético sobre os desígnios, quiçá espirituais, de Portugal. Bem sei que foram reescritas inúmeras vezes alterando-se vocabulário, além de que a edição de que disponho não será nem de perto nem de longe, a mais antiga. Mas de qualquer modo servirá de exemplo enunciar aqui alguns versos do texto que servirá para ilustrar o que digo. “Como nas Alcaçarias / Andam os couros ás voltas, / Assim vejo grandes revoltas / Agora nas Cleresias. / Porque usam de Simonias / E, adoram os dinheiros, / As igrejas pardieiros, / Os corporais por mais vias” (Gonçalo Annes Bandarra, As Profecias do Bandarra, Mem Martins, Novalis, 2001, p.11). O texto prossegue por várias páginas num tom que dizem os entendidos ser popular e de fraca qualidade literária. Não quero por em causa a questão da pobreza das trovas em termos literários. Mas é preciso pensar que o seu autor não passava de um sapateiro que tinha a sorte de ter aprendido a ler e a escrever. A ideia que temos desse tempo é que o povo era todo ignorante, de dentes podres e a cheirar mal. Que a sua instrução era nula e completamente desconhecedora dos conhecimentos das ciências e das humanidades. Ora, neste tempo, surgiu um sapateiro em Trancoso que sabia ler e escrever; e mais, escreveu um livro em língua portuguesa, dos mais lidos de sempre. Estranho este facto, deveras. Mas isso não será objecto neste momento. O que nos interessa aqui é esclarecer, não o ponto de vista do autor, mas o ponto de vista dos seus leitores ao longo da história. Como é que um povo pobre em vocabulário demonstra tal interesse na leitura de uma obra tão rica de vocabulário e ainda por cima de registo histórico? Sim, porque a pobreza literária das trovas não se relaciona com a riqueza do seu vocabulário, parece-me. Escolhi esta obra precisamente por isso. Não um Camões clássico de vocabulário rebuscado. Mas um simples Bandarra, pobre literariamente, para comparar com o vocabulário comummente utilizado na época actual. Comparamos assim pobreza com pobreza e já levando em conta as alterações linguísticas que a língua sofreu ao longo dos tempos. Outro autor, talvez menos polémico que poderemos chamar à cena é Gil Vicente. O dramaturgo do povo possuía, este sim, grande qualidade nos textos que escrevia. E no entanto era popular e parecia que todos entendiam o que os seus actores diziam, apesar do seu vocabulário indiscutivelmente rico. Era aplaudido pelo povo português que muito se ria dos comportamentos das suas personagens tipo construídas de forma quase anedótica. Quererá isto dizer alguma coisa? Em primeiro lugar, talvez que de facto a língua portuguesa esteja a sofrer uma contracção no seu vocabulário e na composição da sua estrutura sintagmática. Em segundo lugar, que essa teoria, pode ser relacionada com fenómenos do tipo politico, social e cultural, mas também económico, religioso, etc., aquilo que Marcel Mauss designou por facto social total.
George Orwell em “1984” descreveu um mundo onde a ditadura do pensamento único e do pensar-crime imperavam, liderados por uma redução drástica do vocabulário dos habitantes. Uma das personagens é mesmo profissionalmente especializada na criação de um dicionário que reduzisse as palavras ao mínimo indispensável, com o fim de evitar pensamentos “supérfluos”, perigosos para o bom funcionamento de tal sociedade. Não iremos tão longe nas nossas especulações. Deixamos isso no entanto como hipótese de desenvolvimento futuro. Gostaria de enveredar por outro caminho mais naturalmente lógico. O do nascimento, desenvolvimento, e morte das sociedades. Tudo quando nasce é pequeno, tudo cresce e tudo se corrompe fisicamente pelo tempo até ao momento do seu desaparecimento material. As sociedades são uma espécie de criaturas vivas e temos conhecimento das grandes civilizações do mundo que assim lhes aconteceu também. Nasceram, cresceram, imperaram, dominaram, e envelheceram acabando por se definhar um dia. Quero crer que a língua acompanha este processo. Quando nasce é limitada a alguns termos. Cresce e desenvolve-se junto com o seu povo e um dia comprime-se e acaba por cair em desuso com a sua extinção. Portanto, a língua é um indicador excelente do estado de uma civilização. Quando é rica é porque as suas gentes estão em grande expansão; quando começa a ser pobre indica-nos a decrepitude cultural de uma sociedade que estará brevemente em vias de extinção.
Se a nossa riqueza liguística está a perder-se, a lição não deixa de ser deveras preocupante. Algo se passa. E ainda que muita gente de fora fale a mesma língua, não é isso que faz a sua riqueza e simultaneamente a preservação da existência do seu povo. Por vezes até poderá acontecer precisamente o contrario. Pois à corrupção de uma língua misturada com outras línguas corresponde uma perda de raízes culturais verdadeiramente genuínas e que, se por momentos ainda dão o ar da sua graça, não podem esperar pela actuação do tempo quando as verdadeiras identidades nele se perderem. É assim que olhamos para trás e não sabemos nada acerca de nós próprios. Ficarão os frutos e morrerão as árvores. Mas os frutos nada serão sem as árvores.
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Inês
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quinta-feira, outubro 18, 2007
A DROMOLOGIA, O AUTISMO E O PODER

As guerras actuais, a fome, a morte escandalosa dos outros, já não nos afectam mais como antes dos meios de comunicação de massas nos manterem actualizadamente informados, principalmente pelas imagens à velocidade da luz, de tais factos. O acontecimento deixou de produzir em nós o efeito de choque e de surpresa que produzia outrora. Vivemos na sociedade do tédio e contudo nunca antes a sociedade foi tão cheia de acontecimentos. A nossa sociedade existe à escala global, onde permanentemente somos informados de tudo o que de supostamente relevante se passa em qualquer coordenada geográfica do globo terrestre. Mas esta velocidade e quantidade a que a informação chega até nós vacinam-nos contra a própria essência do conceito “acontecimento”. Ele mesmo deixou de o ser à partida porque se encontra desvirtualizado da sua própria definição.
Neste jogo de velocidade a que o facto acontece, gera-se uma hierarquia de poderes. Segundo Paul Virillo (Speed and Politics: An Essay on Dromology. New York: Semiotext(e), 1977 [1986]) o que se move rapidamente ganha poder sobre o que se move lentamente. A Posse, o poder, diz mais respeito a questões de controle de circulação e movimento, do que de contratos e escrituras. Quem se move rapidamente adquire o poder. Pelo contrário quem está parado, perde-o. E quem domina a velocidade igualmente, adquire o poder e vice-versa. Esta é a grande explicação para que os mass-media detenham o poder que detém actualmente. Eles dominam o poder de transmitir o “acontecimento” à velocidade da luz.
Mas isto não se passa sem o efeito perverso apontado anteriormente – o efeito da velocidade ser tão grande que faz com que o próprio objecto perca o seu impacto, e consequentemente a sua importância na sociedade. Dá-se assim lugar a uma nova hierarquia de importância de acontecimentos baseados numa nova escala de valores morais. Porque estando o acontecimento distante do espectador, este não é afectado de modo directo pelo primeiro. A vida humana singular, alvo da maior importância no passado, perde valor em proveito de factos muitas vezes despersonalizados de conteúdo mais ou menos pertinente para a sociedade em geral. Mesmo quando a vida humana está em questão, são normalmente as questões de coscuvilhice mesquinha que despertam a curiosidade do público. Tornamo-nos espectadores da morte e da desgraça alheia. E nisso, a única coisa que nos importa é saber o enredo do caso, como se de um livro policial se tratasse, para comentar com o colega do lado no emprego. O aspecto catártico deste fenómeno não pode ser descurado. Emitimos as nossas opiniões sobre o caso, afirmamos os nossos juízos de valor, realizamos todas as nossas catarses, mas não nos preocupamos com o que verdadeiramente está em causa – o sofrimento alheio. Nada nos diz. Este actual autismo do espectador resulta portanto da rapidez, quantidade, e modo de informação que lhe chega diariamente. E esse autismo é simultaneamente a sua defesa para se tentar manter equilibrado. Face ao movimento rápido da sociedade, o homem actual não consegue processar emocionalmente toda a informação que lhe chega porque isso lhe traria o colapso nervoso. Necessita portanto de se manter afastado emocionalmente dos acontecimentos para manter o equilíbrio e prosseguir a sua vida normalmente. Esta serenidade e impavidez face à morte, à desgraça alheia, resulta numa dormência verdadeiramente autista e esquizofrénica, mas que é a solução psico-social encontrada pelos indivíduos para o problema. Assim se geram seres humanos passivos, completamente controláveis pelo poder instituído. E há que dizê-lo: existe um aproveitamento pelo poder deste estado de letargia social. É através dele que o próprio sistema político e económico se mantém sem grandes interferências da população vencida além do mais pelo cansaço de se manter equilibrada face à velocidade da História.
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sábado, outubro 13, 2007
Mais uma das maravilhas da globalização
Por motivos que em grande parte se prendem com a alta de preços nos mercados internacionais, a factura de bens alimentares de primeira necessidade será mais pesada para os portugueses, tornando ainda mais difícil a vida dos agregados familiares com menos rendimentos.
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Silvério
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sexta-feira, outubro 05, 2007
Não há correio
Hoje passei pelo site do Correio da Manhã e dei lá de caras com uma noticia de um rapaz que foi assassinado em Barcarena por quatro «jovens» quando se preparavam para assaltar um automóvel. Como a noticia tinha o intuito apenas de promover a venda do jornal em papel e havia mais texto nos comentários do que no artigo do jornal decidi participar, focando a questão que mais me tinha chamado a atenção, precisamente o facto do artigo se referir aos criminosos como jovens, apesar da vitima ser um jovem.
O comentário nada tinha de insultuoso, nem tão pouco nenhumas referencias xenófobas ou racistas, pelo menos implicitamente, já que do intuído sou suspeito para falar. Pretendia apenas referir que começa a tornar-se cómica toda esta sobre utilização do vocábulo "jovem" para definir os autores de crimes, maioritariamente e muito dificilmente comprovável para a opinião pública, originários de países fora do continente europeu. Relembro-me do caso dos romenos, do francês, do espanhol que foi apanhado para os lados da figueira da foz e de tantos criminosos europeus em que é dita explicitamente a nacionalidade. Quanto aos sul americanos já existem mais algumas reservas, mas nada que se compare ao tratamento dado aos indivíduos de etnias africanas. Claro que tentei ser o menos incisivo possível no meu comentário, pois já sabia que dificilmente passaria no filtro devido às normas impostas pela UE aos média há alguns meses atrás, que regulamentam que nestas situações devem ser usados termos do mesmo cariz para ocultar elementos que possam levar a que hajam reacções mais xenófobas numa sociedade, em que todos os esforços políticos são para uma formatação "híbrida", termo utilizado em comunicado da própria UE.
Não sei se realmente os indivíduos não são europeus, sei que me censuraram e não por violação de nenhuma norma da livre expressão. Pois se a moderação de comentários com carácter insultuoso faz sentido, para mim ela ultrapassa todas as marcas de um estado onde os cidadãos são livres, quando se começa a aplicar a opiniões de carácter ideológico que respeitam as leis democráticas.
Já tinha conhecimento de alguns casos destes nas caixas de comentários do correio da manhã, infelizmente não é caso único, e já merecia a atenção popular e algum tipo de observatório que identificasse a censura que existe em Portugal nos nossos dias. Se alguns se questionam quanto ao nosso "estado de direito" eu não tenho dúvidas nenhumas, apenas não é tão fanfarrão como outros no passado.
Por isto e para que a situação do André Coelho não se torne cada vez mais uma coisa do quotidiano de toda gente neste país, o blog do canto da cotovia vai tentar reunir situações de censura ideológica que vão aparecendo por aí.
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Silvério
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quinta-feira, setembro 27, 2007
domingo, setembro 09, 2007
Dividir para Dominar
Dividir para dominar. Uma regra que imperou durante toda a época colonial é agora novamente posta em acção. Não no espaço do “Outro” mas no lugar do “Eu”. Um povo unido entre si é sempre uma criatura monstruosa que dificilmente se pode controlar à nossa própria vontade. Se “o povo unido jamais será vencido”, a verdade é que nunca até agora as nações ocidentais se encontraram tão fragmentadas no seu interior. Não há uma identidade colectiva forte que faça os indivíduos sentirem-se parte de um grupo geral à escala nacional. O conceito de pátria caiu em desuso e parece-nos até mal que alguém o invoque, sob pretexto de se tratar de uma ideia “fascista” e reaccionária. Dentro dos nossos países está, portanto, cada vez mais, a desaparecer a consciência de nacionalidade. O que existe são pequenos grupos, associativos, ligados a causas temáticas, e que possuem uma voz relativa naquilo a que chamamos de democracia. Estes grupos de identidades são no fundo os fragmentos que constituem a renda societária, mas que contribuem mais para a divisão do todo do que para a sua unidade. Se existem relações de cooperação entre alguns, outros ignoram-se entre si, e outros ainda disputam entre si pequenas questões sempre ligadas a demonstrações do poder que cada um possui (um poder raramente revolucionário, mas mais de esferas de influências e de redes de compadrios). Não há nada, em nenhuma circunstância, que mobilize todos estes pequenos grupos para um mesmo objectivo comum. Isto porque à semelhança das ideologias, as grandes causas desapareceram das últimas gerações. Contentamo-nos com o sistema político “perfeito” que estamos convencidos ser o que possuímos. Porque é isso que nos é dado todos os dias pelos mass média e pela socialização de que somos alvo, como um dogma que jamais poderemos por em causa.
É esta fragmentação da sociedade em células de pequenos grupos, ou mesmo familiares ou individuais, que o nosso poder político se baseia para poder dominar. À medida que a sociedade cresce (não por via do aumento dos nascimentos dos autóctones, que se sabe serem catastroficamente diminutos, mas por via da imigração massiva), esta divisão dos indivíduos é fundamental para que o “monstro” se torne dominável. “Dividir para dominar” continua a ser uma máxima do “príncipe” tão maquiavélico como a própria personagem, já que é pela fragmentação das identidades grupais em pequenas células, que se desmobiliza os indivíduos de agir e até de pensar. Reservam-se assim as catedrais do consumo, centros comerciais e hipermercados, para o gasto “supérfluo” de energias nocivas à manutenção do sistema. Se em algumas épocas históricas se procurava lutar contra o sistema, neste momento toda a energia é gasta em tentar entrar no sistema e ser aceite por ele. O sistema é mau, mas ficar fora dele é pior. Lutar contra ele é suicídio. Vivemos dominados pelo medo de não sermos aceites. De ficarmos de fora, de não arranjarmos emprego, de não termos casa, de passarmos fome. Ou seja, estamos preocupados com as nossas necessidades básicas. A vida não está assegurada para ninguém. Não há supostamente censura, não há supostamente perseguição política, mas vivemos dominados pelo medo. E este medo vem da insegurança que o actual estado de coisas nos provoca. O Estado cada vez mais se demite das suas obrigações para com os seus cidadãos. Estes por sua vez possuem cada vez mais obrigações do que direitos. O medo é neste momento, o mecanismo gerador de estabilidade social. Não provém das mesmas situações que no passado ditatorial, mas provém de novos mecanismos sociais repressores que agem no indivíduo de forma mais ou menos consciente. Esses mecanismos são essencialmente a dependência dos indivíduos do sistema para a sua própria sobrevivência. A economia de mercado capitalista fez as pessoas dependerem totalmente do trabalho assalariado para sobreviver. Não há maneira de escapar disso. Por outro lado os níveis catastróficos de desemprego desarmam-nas completamente de poderem agir contra o que quer que seja, e destituem-nas do que mais sagrado há na sobrevivência que é a capacidade de lutar por ela mesma. A protecção social é diminuta, a família adquire cada vez mais, menor importância. O individualismo é-nos imposto pelo sistema como uma condenação ao degredo. Um individualismo em que é cada um por si e cujo assassínio dos Deuses não permite que alguém seja por todos. O Homem pós-moderno, é um homem reduzido à consciência de ser unicelular. É um Homem agorofóbico, sem referências protectoras da sua condição frágil na vida. Somos crianças envelhecidas prematuramente que permanecem crianças mesmo após a idade adulta. E somos nós as células deste tecido social doente, sedento de renovação e de transformação, mas que a sua desfragmentação cultural e inconsciência política, a sua anomia paralisante e castradora não permite a realização daquilo que todos nós secretamente desejamos. Fica a ideia de que decerto um dia lutaremos com as armas que nos restarem então. E nesse dia acordaremos para uma nova realidade que já é sonho dentro de nós.
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sexta-feira, agosto 31, 2007
O Arquivista II
“As cidades obscuras – Relatório sobre um curioso caso de superstição. Por Isidore Louis. Investigador do instituto central de arquivos. Subsecção de mitos e lendas”. É assim que se inicia o relatório do arquivista. Ele terá de analisar certos documentos arquivados com o fim de completar a reclassificação dos mesmos. E estes documentos relativos às cidades obscuras são documentos místicos cuja data de criação não é recente. Tal como ele próprio afirma mais à frente: “Era visível que a mistificação não datava de ontem” (p.8).
O título da investigação de Isidore – “As cidades obscuras” – remete-nos para algo que se passa à margem da normalidade - “Devo confessar que eu próprio tinha uma ideia algo confusa daquilo que esses termos poderiam envolver, e não me parecia que as pesquisas que então iniciava fossem diferentes das dos meus trabalhos anteriores”(p.8). Mas, ao contrário do esperado, logo à partida a anormalidade da situação diferencia-a das restantes e constitui um motivo suficientemente forte para que nos entreguemos à leitura do relatório de Isidore. Tal como o arquivista, nós próprios somos presas de algo interessantemente novo e inesperado.
Isidore “desenterra peças” de dentro dos documentos que analisa abrindo-nos a um imaginário totalmente desconhecido do público geral sobre o que pode constituir o trabalho de um mero arquivista. Neste aspecto vemos a coincidência entre o imaginário e a realidade, pois entre o sonho de uma profissão e o seu quotidiano, sabemos vai um passo. Mas Isidore encontra a sua realização profissional fazendo coincidir ambos os planos numa só dimensão.
As “peças” que Isidore desenterra são documentos “apócrifos” que “não se distinguem, à primeira vista dos restantes”(p.8). É curioso o conceito de documento apócrifo aqui utilizado, pois se pode tratar-se de um documento sem autenticidade, cujo autor, ou lugar, ou data, não é verdadeiro, igualmente se refere aos escritos que se dizem inspirados por Deus, mas não incluídos no cânone bíblico por serem de autenticidade suspeita. Portanto, estamos aqui perante uma duplicidade quanto à verdadeira identidade dos documentos que Isidore Louis analisa – documentos (textos e imagens de técnica invulgar) de autoria incógnita; documentos que poderão estar directamente relacionados com o mundo divino, supra-natural. Somos assim introduzidos ao tema que se nos revela como fracção de um puzzle meio divino, meio surrealista, que a pouco e pouco vamos montando.
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Inês
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Multi-culturalismo
O termo "multi-culturalismo" parece indicar a coexistência pacífica de várias culturas num mesmo local ou sujeito. No entanto, o "multi-culturalismo" irá conduzir à massificação total dos indivíduos seguindo a tendência da globalização a vários níveis (económica, política, cultural, demográfica e genética), e consequentemente à morte do "Outro". (vidé: post anterior)
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Inês
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Reflexões sobre o fundamentalismo islâmico e o multiculuralismo Ocidental
A partir do séc. IV/V, o esoterismo operativo do mundo ocidental perdeu-se, resultante da decadência do Império Romano e concomitante repressão religiosa, de tipo totalitário encetada pela nova religião oficial - um cristianismo ortodoxo (orto - recta; doxa - opinião) que nunca pretendeu renovar o ciclo anual das festividades, mas sim acabar com todo o culto não cristão (e ainda que se tenha absorvido muito das antigas práticas, perdeu-se a raiz esotérica desses cultos e dos simbolos a eles agregados, além de que se diabolizou toda a tradição pré-cristã do ocidente).
A perda, rejeição e diabolização do pensamento esotérico afectou, inclusivé, a área científica. Houve uma regressão profunda. Por exemplo, a esfericidade da terra encontra-se referenciada em muitos textos sagrados de povos antigos como no Popol-Vuh do antigo México pré-colombiano. No mundo clássico era afirmada por Pitágoras, Platão, Aristarco de Samos, entre muitos outros. Erastótenes calculou mesmo experimentalmentee o perímetro da terra, errando apenas em cerca de 200 quilometros. Contudo, essa teoria foi considerada pela corrente que vingou da Igreja Católica, como "falácia inventada pelo Diabo".
Ora, vivem-se tempos actuais em que esta incapacidade para aceitar o "Outro" está particularmente dinamizada pelo ódio de certos povos às culturas estrangeiras. Os motivos serão vários, sem ou com razão. Mas o problema é demasiado grave e requer mais do que meras opiniões e estudos laterais. Requer trabalhos antropológicos sérios sobre o tema.
Não poderemos no entanto fixar-mo-nos apenas de um lado da questão, e procurarmos somente as razões que levam umas culturas a odiar as outras, as quais desenvolvem muitas vezes complexos de culpa levando-as à submissão total face à raiva e agressões das primeiras. Quero com isto dizer que, respectivamente ao fundamentalismo islâmico, os ocidentais não podem continuar numa posição de "agachamento" face às agressões que vai sofrendo. Se o Islão requer entendimento, de igual forma as culturas ocidentais o necessitam, até porque já foram sobejamente agredidas no passado pelas sucessivas aculturações resultantes das invasões históricas que sofreram.
O multiculturalismo parece-me ser uma fórmula demasiado simplista e errada de resolver o problema, já que verdadeiramente não agrada a ninguém - nem ao Ocidente; nem ao Oriente. É precisamente contra a aculturação levada a cabo pelo Ocidente que o fundamentalismo islâmico se insurge. Eles não querem a roupa, nem os objectos, nem a comida, nem as ideias nem a religião do Ocidente. E estão no seu direito. Têm razão porque querem fazer prevalecer a sua identidade cultural. Mas e o "Ocidente"? esta mescla de estéticas já sem significação cultural própria de raiz? que dizer da atitude que se tenta cultivar nos povos europeus, por exemplo, onde um mesmo sujeito mistura em si comportamentos miscigenados e importados de vários pontos do globo, com os quais não tem nenhuma afinidade cultural, a não ser aquela que é veiculada pelos média? A aculturação dos ocidentais pelo "Oriente" está a ser levada a cabo desde que os contactos entre ambos se iniciaram. Há séculos que isso acontece. E isso foi positivo no enriquecimento do património cultural de todos, parece-me. No entanto, a forma massificada como isso se processa actualmente e a veemência com que o Oriente se impõe no contexto europeu, obrigando os ocidentais a conviver diariamente com hábitos de culturas estrangeiras, nunca trouxe perspectivas tão catastróficas para o seu futuro. Não pretendo sequer desenvolver a tese demográfica e genética que aponta mesmo para um desaparecimento total dos europeus em substituição de descendentes cada vez mais multi-raciais. Mas essa é uma das muitas questões que nunca são seriamente encaradas e que pelo contrário permanecem veladas à nossa consciência devido aos nossos complexos históricos ainda resultantes do nosso passado recente.
E porquê defender uma identidade cultural própria? Do mesmo modo que as pessoas necessitam de ter um passado em que se reconheçam, assim é também com as culturas, pois é pelo nosso passado que tiramos lições para o futuro. Aprendemos com as nossas experiências, reconhecemos o nosso rosto nos traços faciais dos nossos pais, sabemos o que herdamos de positivo e agradecemos-lhes por isso. A História fundamenta o presente. Saberemos quem somos, se não soubermos de onde viemos? Certo: não temos de viver de acordo com o nosso passado. Mas teremos de reconhecê-lo sempre que nos quisermos afastar dele. De um modo ou de outro, precisamos sempre das nossas tradições, dos nossos costumes, da nossa língua, da nossa forma de pensar, por todos os motivos indicados e, ainda, porque quando todos formos iguais ao "Outro" não vai haver "Outro" no mundo. Isto leva-nos à questão da massificação, que é em ultima instância aonde o multi-culturalismo nos conduz. o Multiculturalismo não é a aceitação do "Outro". É o seu desaparecimento, a sua morte. O "Eu" vai imperar sobre a Terra como um mar imenso de gente com o mesmo nome. Mas não vai ser o "Eu Ocidental" ou o "Eu Oriental" que vai ganhar esta guerra. Vai ser um "Eu" novo, sem passado, sem raiz, sem identidade verdadeiramente fundamentada. Vai ser uma "coisa" criada pelo poder que desde já está a ser posto em marcha pelo poder político. O Homem Novo, não vai saber de onde veio, nem para onde vai.
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Inês
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sábado, agosto 25, 2007
(1)
Hoje estive para escrever ao Abrupto para dizer que realmente para aprender a ceifar não há melhor sitio do que no PS ou no PSD, vamos a ver se o Pacheco Pereira escreve 19 artigos sobre o caso somague, ou se já acabaram as colheitas. Gosto muito destas moralidades que param à porta de casa, ou que pelo menos perdem o vigor, sendo substituídas por um ar mais paternalista.
Nota positiva no entanto para o comentário que faz sobre o bem e o mal, os grandes males desta sociedade acontecem devido aos maniqueísmos. A ver vamos se os militantes do BE da próxima se fazem acompanhar de um Corão para combater os infiéis.
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Silvério
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domingo, agosto 19, 2007
Do outro lado do espelho
Esta semana estive a rever o "V de vendetta" e fiquei com a sensação de que estive a dormir quando o vi pela primeira vez, já que não conhecia a obra em que foi baseado o filme.
Isto pode dever-se a ter visto o filme para primeira vez sem ter noção de que seria uma obra com um forte carácter intervencionista de âmbito politico-ideológico. Claro que era um filme que apelava aos instintos revolucionários de muitos de nós, mas é comum isso acontecer em muitos filmes que se ficam por aí. No entanto, desta vez já ia "com ela fisgada", especialmente porque tinha uma comichão de tentar perceber a fonte de todo este sentimento revoltoso que existe na nossa sociedade, e que parece aspirar apenas à destruição da nossa democracia, como se isso fosse o fim último. Parece que pior não podemos ficar, pelo menos é o que é dado a entender.
Pois desta vez a mensagem apareceu-me absurdamente clara, parecia que estava a olhar exactamente para onde devia olhar, o que nem era difícil desde o inicio. São este tipo de coisas que por vezes até nos fazem pensar se estamos a testar convenientemente a nossa percepção.Conseguimos ver sempre o que nos põem à frente dos olhos mas apenas se já tivermos sido alertados para o "domínio" a que determinada coisa pertence. Por exemplo no filme 300, toda a polémica que antecedeu o lançamento do filme deixou a maioria das pessoas já preparadas para procurar sinais de uma determinada ideologia no filme (aposto que o sangue que aparece na imagem do 300 lhe parece mais grotesco do que o do V). No V de vendetta não aconteceu nada disso. Curiosamente são ambos baseados em obras de banda desenhada, mas de extremos diferentes.
No V de vendetta além do "ícone" do filme e do herói ser a inversão do símbolo anárquico (imaginem porventura se o do 300 fosse uma suástica), uma das coisas que me chamou mais a atenção foi o facto do herói matar policias brancos no papel de maus da fita. Bem que tentei procurar policias "multiculturais" mas não encontrei nenhum, eram realmente todos caucasianos. Quanto à população "escravizada" já era multicultura, como se pode ver no fim do filme, quando aparece uma daquelas cenas que mais parecem tiradas de um anuncio "todos diferentes todos iguais". No 300 o mau da fita é preto, ora mas é um filme que apela às diferenças étnicas, isso não é nada de mais, agora num filme multiculturalista os policias serem uma casta aparte é que é de estranhar, provavelmente existe alguma subliminariedade de algum tipo.
Outras mensagens de extrema esquerda do filme que destaquei, alem da previsível "anarquia no uk", são:
- Os terroristas são sempre rebeldes bons que através das mentiras dos governos de extrema direita passam sempre por maus da fita.
- O herói é um terrorista que usa um colete bomba, em clara inspiração dos bombistas suicidas muçulmanos.
- Um dos personagens rebeldes tem um corão em casa, e quanto a isso diz que não é muçulmano, mas que isso não lhe impede de apreciar a beleza das suas passagens e figuras (não sabia que o corão tem imagens, pensava que os muçulmanos eram contra isso). Ora o filme é extremamente também anti-clerical, logo esta simpatia islâmica traz água no bico. Aqui nota-se a ideia do inimigo do meu inimigo é meu amigo. Além disso apela claramente e tendenciosamente para um dos problemas com que os britânicos e todos os europeus se deparam hoje em dia, a invasão cultural islâmica, da qual a extrema esquerda e toda a facção esquerdista da comunidade europeia é a sua maior aliada.
- O cartaz com a bandeira dos EUA e do Reino Unido com uma suástica no meio, com o intuito que criar uma imagem negativa desses países, que associado com os policias todos brancos, pode interpretar-se como os grupos mais nacionalistas e defensores da cultura desses países, e como sabemos esses dois países tem sido até aqui os mais acérrimos defensores do ocidente. Mas aqui até se compreende, no 300 os traidores também são mortos à facada. ;)
Além disto achei engraçadas as inúmeras referencias à censura, provavelmente devido aos critérios editoriais da editora da bd. Ora confundir censura com a vontade do gajo que está a pagar a coisa parece-me absurdo. Se queria que fosse à sua maneira, tivesse pago e distribuído, provavelmente não ia muito longe.
Ora o que queria perceber mesmo era de onde vem esta inspiração revolucionária anti-regime que vivemos nos dias de hoje, porque parece-me que se for por diante, vai prejudicar mais do que ajudar alguém, alguém há-de ajudar, mas talvez não seja quem se espera. Acima de tudo porque é feita de forma velada, promovida por grupos de determinada ideologia, ao contrário das mensagens de extrema direita que são perfeitamente identificáveis.
Outra coisa será o facto dos anti-regime se limitarem a querer destrui-lo, sem se preocuparem em substitui-lo por qualquer coisa válida alem da anarquia, tal como no filme o herói não se preocupa minimamente com isso. Devido a isto a extrema-esquerda tem tendência a definir-se sempre por oposição à extrema-direita salvo raras excepções. Um exemplo é: "Se é cristão, sou muçulmano". Ora se a extrema-direita tem ideias bem delineadas sobre o que é, e a estrema-esquerda não, daí só podem vir estas atitudes de vizinhas de janela sempre a provocar e a tentar atrasar e irritar.
Quem serão verdadeiramente os maus da fita, será que é preferível um regime muçulmano com apedrejamentos de mulheres na rua à "ditadura" Britânico-Americana?
Esta parece-me que é mais a revolução do cavalo de Tróia do que de outra luta qualquer, e é nisto que consiste a subversão e o perigo da extrema-esquerda, é no fundo, quererem destruir a sociedade ocidental.
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Silvério
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quarta-feira, agosto 08, 2007
Corre Eva que os Europeus já nos descobriram a manha.
Agosto é aquele mês em que não apetece fazer nada, ironia do destino, tinha de ser neste mês que havia de aparecer-me um novo projecto para ocupar-me. Se à Inês lhe apetecer, que escreva ela.
Entretanto, enquanto não houver pachorra para escrever, vou fazendo como o louvável Pacheco Pereira e ponho umas imagens porque não dá muito trabalho.
Esta fui busca-la ao "the endorian experience", e adivinhem lá sobre o que é.
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Silvério
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sexta-feira, agosto 03, 2007
Epá está caro.
€24,00 por uma caixa com 16 cervejas de meio litro na Alemanha e num festival que parece ser porreiro é muito caro. Em Portugal bebo quase uns 12 copos de 0,25L com o mesmo dinheiro.
Dava também bem um saltinho era aqui, pode ser que seja para o próximo ano.
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Silvério
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segunda-feira, julho 30, 2007
Praia Natal

Hoje deu-me um cheirinho a Natal e não foi por ter andando a fazer downloads ilegais de temas natalícios sem direitos de autor.
No prédio o mesmo do costume, até estive para sugerir umas obras de remodelação, com o intuito de tirar umas paredes e alargar o condomínio, pois a maior parte dos moradores vive mais tempo nas escadas do que em casa. A vizinha do segundo que vem à porta quando alguém sobe ou desce as escadas e depois inventa uma desculpa esfarrapada. Mas não foi isso que me fez lembrar do Natal, isso só me faz relembrar deste mundo em que as pessoas não têm espaço para viver, de jardins reduzidos, de espaços de passagem, onde somos empurrados, uns a seguir aos outros porque atrás vem sempre alguém e existe sempre uma fila com alguém à frente. Neste mundo os meus vizinhos têm de andar a conversar de pé nas escadas porque não há espaço nem tempo, para se sentarem na soleira da porta a passar "o bocadinho bem bom".
Pois então, como que raio é que fui lembrar-me do Natal num dia de 40 graus a meio do Verão? A resposta é óbvia. No sitio do costume. Que espaço é mais emblemático do Natal do que um supermercado?
A verdade é que fui lembrar-me do Natal porque já não haviam alfaces no supermercado, coisa estranha num dia normal porque até estava bem guarnecido de todos os outros tipos de vegetais, menos da dita couve. Ora só no Natal é que semelhante coisa acontece, e os estabelecimentos comerciais não conseguem dar resposta à procura dos produtos da época. Felizmente consegui encontrar outra alface na frutaria da dona Deolinda, a última, e para a qual a dona Deolinda, a julgar pela sua cara, já parecia ter planos.
Desta vez ganhei eu, mas ao que parece ainda há muito verão, e da próxima vez pode ser que não tenha tanta sorte.
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Silvério
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domingo, julho 29, 2007
A Espiritualidade Ocidental
Se as conversas são como as cerejas, as ideias não lhes ficam atrás. A ideia referida no ultimo post da Biblioteca de Alexandria – O arquivista I, que supõe que mitos e lendas ficam marcados nas estruturas arquitectónicas das cidades (mortas e vivas) lançou-me num novo texto. Trata-se disso mesmo – da forma como o aspecto religioso e espiritual marca a materialidade, ainda que esta tantas vezes se escude atrás do puro materialismo, positivismo, cientismo, e outros ismos cuja fundamental função é retirar à carne o espírito, e fazer com que o barro se articule sem o sopro divino.
Ora, a sociedade ocidental é erradamente, e muitas vezes, conotada com esta materialidade desenfreada. Na verdade este materialismo é recente, e ligado à primeira revolução industrial iniciada no século XVIII em Inglaterra. A sociedade ocidental sempre teve a sua espiritualidade extremamente desenvolvida. Abundam em arquivos e bibliografia os mitos, as lendas, os contos populares das sociedades tradicionais do ocidente, embora estas estejam politicamente condenadas a desaparecer. O que quero dizer é que essas histórias e lendas, começam a deixar de ser transmitidas de geração em geração, por motivos que se ligam menos às crenças e vontades das pessoas do que à política dos governos que gerem a demografia, a economia, e a cultura do país em questão. Por exemplo, é sabido que os movimentos migratórios estão a desertificar o interior de Portugal. Ora não há cultura que resista num local onde as pessoas já lá não estão, onde os filhos estão num país, os avós noutro, os netos só conhecem o país de origem dos pais como o local de férias, e os bisnetos nunca saberão falar a língua original dos seus bisavós. Estamos a falar de um período de 100 anos no máximo. Em 100 anos nesta situação imaginem-se os valores (culturais e outros) que não se perdem. Agora imagine-se o que sucede em 300 anos. Mas não era sobre as consequências nefastas da emigração que queria falar, nem tão pouco da imigração que esse é um problema mais actuante nos grandes centros urbanos e que ataca de outro modo. O que pretendo falar é mesmo sobre a espiritualidade que o ocidente sempre teve e que continua a possuir. As marcas na materialidade ocidental da sua espiritualidade tão mal amada pelo poder. Este é o tema.
É certo: existe espiritualidade envergonhada no ocidente. As pessoas falam baixinho quando falam da sua religião (a não ser que pertençam à religião oficial do “reino”), têm medo de ser mal compreendidas quando falam de temas espirituais. É um facto. Tal como falam baixinho se algo as coloca no rol daqueles que não pertencem à maioria (as minorias são mal vistas. São criticadas, são silenciadas, são desmobilizadas, são esquecidas, são incomodas, são insubmissas e subversivas à democracia enquanto ditadura das maiorias e por isso quando são permitidas, são pelo menos mal toleradas pela “gerência”). A espiritualidade do ocidente continua a expressar-se como algo de que ele não consegue livrar-se apesar de todas as investidas politicas (vivemos num sistema de república laica) para que ela acabe de vez.
Nunca foram criados tantos mitos como na actualidade. Cada bem de consumo possui de valor mensagens codificadas que não são mais do que mitos veiculados pela publicidade e que o consumidor vai inconscientemente ritualizar ao adquiri-lo. Claro que este encantamento perde toda a magia quando o consumidor usa o bem pela primeira vez e denota inconscientemente que não atingiu o objectivo que estava patente na publicidade. E aí o bem perde o seu valor mítico para ser apenas um bem material para determinado uso, muitas vezes abandonado a um canto. É assim, aliás, que se faz aqui tanto lixo. Num outro plano, podemos ver que esta espiritualidade é no fundo um aproveitamento do materialismo para conseguir sobreviver. Quer dizer: a sociedade materialista de que fazemos parte, só sobrevive porque faz um aproveitamento parasitário da necessidade de espiritualidade do indivíduo – retirando-lhe a verdadeira espiritualidade fundada nos seus ancestrais e na sua cultura tradicional, acaba por criar o vazio espiritual necessário para preencher com os bens míticos de consumo que lhe pretende vender a troco de dinheiro ganho com a sua exploração laboral. Assim a espiritualidade não só não abandonou as sociedades ocidentais, como é ela que ingenuamente mantém e sustenta os seus regimes pseudo-democráticos e capitalistas.
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Inês
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